segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dez lições da greve da construção civil de Fortaleza

Operários em greve marcham pelas ruas de Fortaleza
Por Fábio José C. de Queiroz, de Fortaleza (CE)

Terminou a greve dos operários da construção civil de Fortaleza. Há evidentes indícios que estamos diante do balanço da maior greve da história da construção civil da cidade, alcançando em elasticidade a greve de 1995, movimento que se estendeu por 21 dias úteis. Foram quase trinta dias de uma ação grevista que começou a se desenhar nas paralisações de duas horas, tática empregada durante os meses de março e abril de 2012.

Em princípio, a greve deveria começar em 8 de maio, mas em alguns canteiros, sem esperar pelo sindicato, os operários iniciaram o movimento paredista já no dia sete. Daí até o final as ações grevistas alcançaram os dias 4 e 5 de junho, dependendo do canteiro de obra, até a assinatura da Convenção Coletiva no último dia 6.

Em primeiro lugar, foi uma greve de resistência. Resistimos ao tempo que castigou corpos e mentes de sindicalistas, trabalhadores de base e apoiadores que concentraram os seus esforços para garantir os piquetes e as manifestações de rua durante aproximadamente quatro semanas. E isso se deu de forma forte, ora debaixo de chuva, ora debaixo de um sol escaldante.

Em segundo lugar, foi uma luta que ganhou o apoio de sindicatos, oposições e minorias sindicais classistas e combativas, um fator que impediu que os grevistas caíssem no isolamento em meio a uma tempestade de ataques sofridos pelos trabalhadores da construção civil. Estiveram presentes os rodoviários, professores, trabalhadoras da confecção feminina, construção civil de Belém e tantos outros.

Em terceiro lugar, a ação grevista conseguiu unificar – na maior parte do tempo – a burguesia de Fortaleza, que não se furtou de empregar os maiores veículos de comunicação da cidade para atacar duramente os trabalhadores e as suas ações. Essa ofensiva patronal ganhou amplitude maior depois do incidente ocorrido em frente à sede do complexo de comunicação Verdes Mares (onde funciona o jornal Diário do Nordeste, que, via de regra, cumpre o papel de panfleto do empresariado do ramo da construção), traduzido na quebra de uma vidraça. Esse fato foi vendido a toda população como uma investida contra a liberdade de imprensa, até como uma forma de escamotear que esse mesmo complexo usou da prerrogativa do direito à mentira durante toda campanha salarial da construção civil.

Em quarto lugar, a greve trouxe à tona o que é a sociedade em que vivemos: rigorosamente dividida em classes sociais contraditórias e antagônicas. De um lado, se colocou uma parte da sociedade, atacando e denunciando os operários; de outro, uma parcela impressionante da população se colocou ao lado dos grevistas, apesar de toda propaganda empresarial.

Em quinto lugar, essa divisão por baixo gerou uma polarização por cima, quer dizer, na chamada superestrutura, onde estão, por exemplo, os governos, a justiça, o parlamento e os partidos políticos. Luizianne Lins (PT), prefeita de Fortaleza e Cid Gomes (PSB), governador do Ceará, na única vez em que se pronunciaram acerca dos acontecimentos, se disseram “indignados” com os operários. A justiça exigiu a volta ao trabalho e lançou mãos de multas e mais multas para aplastar os grevistas, sem, no entanto, obter os resultados esperados. Já o parlamento se sentiu compungido a mediar uma negociação que forçou a patronal a sentar-se à mesa.

A página mais espetacular, do ponto de vista da experiência da luta de classe, foi a conduta dos partidos políticos. O PT, que dirige a capital do estado, que se encontra à frente da Câmara de Vereadores e é parte do governo estadual, quando não silenciou, tomou o lado dos que tentavam criminalizar o operariado. E assim se comportaram os partidos da ordem. O que surpreendeu foi uma nota do PSOL, no momento em que a greve era mais atacada, depois do episódio em frente ao jornal Diário do Nordeste. Em sua nota, o PSOL se rendeu à chamada “opinião pública” e não deixou de fazer coro à ofensiva dos que queriam sepultar o heróico embate dos trabalhadores.

Em sexto lugar, a estratégia patronal de derrotar a campanha salarial da construção civil fez com que a indignação dos operários atingisse o seu ápice, explicando a radicalização que se ampliou e aprofundou ao longo das ações de rua, principalmente quando se postavam diante dos canteiros, expressão material e simbólica da exploração e da opressão que sofrem cotidianamente. 


Em sétimo lugar, essa foi a greve da organização de base. Em sintonia com o espírito da letra das resoluções do Congresso da CSP-Conlutas, os trabalhadores se organizaram em um comando de base, que se reuniu do começo ao fim dessa verdadeira guerra de classe, discutindo e votando os ajustes táticos e garantindo o êxito da mobilização. Várias táticas foram adotadas ao longo da luta e elas passavam sempre pelo crivo do comando que, em geral, reunia entre 40 e 60 ativistas. Sem esse fato novo, dificilmente, os diretores sindicais teriam tido reais condições de sustentar um combate tão difícil. Pela primeira vez, a diretoria se diluiu em uma direção de base e se submeteu às suas decisões.

Em oitavo lugar, essa foi a campanha salarial das grandes marchas pelas ruas de Fortaleza, Maracanaú, Caucaia e outras cidades da região metropolitana. Os operários da construção civil não se contentavam em parar os canteiros, em ocupar a Praça Portugal e fazer as suas assembleias permanentes. Queriam e ganhavam as ruas com passeatas que chegaram a aglutinar entre 4 e 5 mil trabalhadores.

Em nono lugar, quebrou-se o acordo nacional dos patrões que queriam que o reajuste do índice de São Paulo (7,43%) servisse de parâmetro para toda e qualquer campanha salarial da categoria e em qualquer parte do país. Além de conseguir o índice de 8%, a categoria conseguiu para os pisos de servente, meio-profissional e profissional (mais de 95% do setor), índices que superam o patamar de 10%, e consequentemente, atingindo o nível de dois dígitos. Com os exemplos de Salvador e Fortaleza, o paradigma patronal começou a fazer água por todos os lados. Além disso, os patrões foram obrigados a negociar os dias parados, questão que eles se negaram a tratar ao longo de todas as conversações.

Exceto os acordos específicos nos estádios de futebol em obra, a maioria dos outros setores da indústria, e mesmo da construção, em qualquer parte do país, fez acordo que mal repõe o INPC ou obtiveram aumentos reais que, em linhas gerais, não estão muito distantes do que se conquistou em Fortaleza. Efetivamente, foram poucos os que conseguiram índices superiores aos acertados na Região Metropolitana de Fortaleza no ramo da construção civil. Além disso, os quase trinta dias de greve não afetarão as férias dos trabalhadores e nem a PLR. Não custa lembrar que a cesta básica (conquistada no ano passado) passou de 35 para 50 reais.

Em décimo lugar, os trabalhadores realizaram uma nova experiência com as instituições da democracia dos ricos. A consciência política já não se encontra no mesmo lugar. Isso explica porque os oradores do PSTU puderam expressar a sua posição em relação ao governo Dilma sem que fossem molestados. Inversamente, os operários ouviam atentamente os militantes do PSTU e isso também elucida um dos episódios mais marcantes da greve: quando a quinzena foi cortada, muitos membros da categoria fizeram questão de comprar o jornal Opinião Socialista, ainda que reconhecessem as dificuldades que passavam naquele momento.

Essa, de feito, foi a greve da superação.

Fonte: Sítio do PSTU

domingo, 3 de junho de 2012

Nota pública dos Trabalhadores da Construção Civil de Fortaleza

Na tentativa de derrotar a greve, patrões impõem FOME às famílias dos operários

Em assembleia, realizada na sede do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil da Região Metropolitana de Fortaleza (STICCRMF), mais de dois mil trabalhadores, aprovaram por unanimidade a manutenção da greve da categoria, e diante da intransigência do SINDUCSON-CE, a prioridade passa a ser o fechamento de acordo por “Por Empresa”.

Informamos que as primeiras construtoras já entraram em contato com o sindicato e acordos de compensação dos dias parados foram fechados. Nestas empresas, a categoria deliberou pela volta ao trabalho.

Reafirmamos que o sindicato dos trabalhadores sempre esteve aberto à negociação e que praticamente todas as nossas reivindicações já foram conquistadas e acordadas com o sindicato patronal, restando ao mesmo diminuir a sua ganância e proceder a assinatura da Convenção Coletiva de trabalho. 

O motivo que leva os trabalhadores a manter a greve é a postura de arrogância, intransigência e a provocação do SINDUSCON-CE que passou a exigir, de nossa entidade sindical a assinatura de um “acordo” autorizando o desconto de todos os dias da greve.

Diante deste impasse, uma parte das construtoras, descontou dos salários dos operários, os respectivos dias. São pais e mães de família que ganham R$ 622,00 por mês, e que em alguns casos acabaram recebendo menos de dois Reais de salário.

Operários em luta por melhores condições de vida e de trabalho, condenados pelos donos do poder, a despejo e falta de comida. Mesmo assim, em grandes lições de solidariedade, união e vontade de mudança, esses mesmos operários seguem determinados em luta.

Ao contrário da postura dos patrões e da Justiça do Trabalho, que ordenou o bloqueio de R$ 200 mil Reais das contas do STICCRMF, e da criminalização sofrida pelo nosso movimento, nossa entidade com o apoio solidário do movimento sindical, realizou a distribuição de duas mil cestas-básicas para a categoria.

Aos familiares de nossos companheiros em greve, pedimos que fiquem firmes e continuem acreditando na força de nossa luta. Seguiremos enfrentando os patrões, a injustiça, a falta de envolvimento dos governantes e, apoiados na solidariedade de todos os que vivem do seu trabalho, alcançaremos a vitória.

Fonte: Voz do Peão

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Por que ninguém se indignou com as 28 mortes acontecidas nos canteiros de obra de Fortaleza em 2011?

QUANDO A LIBERDADE SERVE APENAS PARA UM GRUPO SOCIAL, NÃO É LIBERDADE DE IMPRENSA E NEM LIBERDADE PLENA


Nos últimos, 23 dias de greve dos operários da construção civil e 13 dias de greve dos trabalhadores gráficos, vimos claramente a quem servem os donos da mídia, e não é a sociedade como um todo.

A mídia de uma sociedade democrática deve primar por princípios éticos que garantam transparência e primem pela verdade dos fatos. Boa parte da mídia no Ceará, prima por seus próprios interesses econômicos e sociais. Repetindo uma velha forma de reprodução do discurso hegemônico sobre os movimentos sociais: A total exclusão ou a criminalização.

Em 13 dias de greve dos trabalhadores gráficos, a sociedade só obteve informação desse processo de luta quando foi interessante responsabilizar uma categoria inteira e sua direção sindical por um ato motivado pela segurança da própria empresa. A luta dos gráficos não existia, ao menos para os leitores cearenses, por que para a categoria que enfrentou práticas ilegais como substituição de grevistas e até o confinamento, ela existe e serve para que pais e mães de família lutem por melhores condições de vida e de trabalho.

E em 23 dias de greve dos operários da construção civil, vimos como é possível a criminalização de um movimento. Embora, a direção da entidade repita constantemente que não incentiva violência, que não fornece bebidas alcoólicas e que defende a liberdade de imprensa. O que vemos é a constante reprodução de noticias que tratam os grevistas como baderneiros, vândalos e bêbados. Chegou-se ao ponto, de se mostrar um trabalhador fumando cigarro Maratá e insinuar que se tratava de um cigarro de maconha.

Imagens de antigos processos de luta são utilizadas para insinuar quebradeira, imagens de funcionários do sindicato fechando um portão são usadas com o mesmo intuito. Uso de câmeras ocultas. Alegações de agressão e vandalismo, sem comprovação de imagem. E tantas outras formas de manipulação da informação que já foram denunciadas em nota pela entidade sindical.

Generalizam-se as exceções. E o que as entidades solicitam? Que mostrem o que está errado, mas não esqueçam a imparcialidade, consultem os dois lados e não acusem sem provas.

Mas, ontem (29/05) a superação de como a imprensa pode julgar fatos chegou ao seu ápice, buscaram declarações de personalidades do Estado, que se pronunciaram sem ao menos ouvir os dois lados, e, diga-se de passagem, pessoas que em tanto tempo de luta desses trabalhadores, jamais se manifestaram em defesa dessas categorias.

Por que, nenhum desses entrevistados questionou as 28 mortes acontecidas nos canteiros de obra de 2011, até hoje? Por que nenhuma delas questionou por que foram substituídos os grevistas gráficos com contratação de outros trabalhadores? Por que em nenhum momento colocaram-se na defesa da luta dos trabalhadores, ou pediram que os patrões mostram-se mais dispostos em negociar?

Quanto ao dia de ontem, mais uma vez, vimos como uma história pode ser construída. Através desta nota, tentamos esclarecer a sociedade e aos jornalistas (trabalhadores), sobre os fatos:

1- O trio elétrico da entidade, onde se encontravam a direção das entidades, cruzava a rua lateral do jornal, quando teve inicio o confronto entre a segurança contratada pelo Diário do Nordeste e alguns trabalhadores;

2- O confronto foi iniciado, pois segundo informações colhidas pela direção do sindicato junto aos trabalhadores, um segurança do jornal teria tirado uma pedra do jardim e chegou a ser orientado para trocar por uma maior;

3- A tentativa de segurar uma pedra, foi impedida por um trabalhador que segurado pelo braço, foi sendo arrastado para o interior do jornal;

4- Foi quando a categoria enfrentou a segurança;

5- Mesmo assim, o presidente do Sindicato dos Gráficos pegou o microfone do carro de som e gritando aos manifestantes pediu que as categorias recuassem e não caíssem em qualquer tipo de provocação;

6- Membros da direção do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil fizeram com seus corpos uma corrente de proteção ao Diário do Nordeste para conter a situação, ironicamente a foto dos dirigentes fazendo a corrente foi capa do próprio jornal;

7- O assessor político do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Valdir Pereira, nunca esteve no local, ao contrário do que foi publicado.

Apesar desta cobertura fora dos códigos de ética da profissão dos jornalistas. As duas entidades sindicais mais uma vez vêm a público afirmar, que não incentivam violência contra jornalistas e são defensores da liberdade de imprensa (o que é diferente de liberdade de mentira ou de liberdade de empresa).

A revolução não será televisionada...

Sindicato dos Gráficos do Estado do Ceará

Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil da Região Metropolitana de Fortaleza


domingo, 27 de maio de 2012

Nota Pública Sobre a Nossa Greve

Fortaleza, 25 de maio de 2012

Estamos em nosso 18º dia de Greve. Hoje, realizamos na Praça Portugal mais uma assembleia geral de nossa categoria e votamos, por unanimidade, pela manutenção do processo grevista.
Dirigimo-nos ao povo Cearense para agradecer o apoio e solidariedade que temos recebido ao longo desses dias de imensa batalha e longas caminhadas, onde lutamos por um pouco mais de dignidade, respeito, melhores condições de trabalho e de salário.

Temos enfrentado uma intransigência absurda por parte dos empresários da indústria da construção civil que, obtém lucros exorbitantes com caras vendas de prédios luxuosos que brotam em cada esquina da cidade. Fortaleza, possuí atualmente inúmeros canteiros de obras.

Através desta nota desejamos esclarecer a verdade de nosso movimento, denunciando as informações incompletas, distorcidas e desatualizadas que, infelizmente são veículadas em alguns dos meios de comunicação cearenses.
Para o trabalhador, é muito importante que a população saiba o quanto são modestas as nossas reivindicações:

Piso salarial para o servente de obra: R$ 640,00
Piso Salarial para o meio profissional: R$ 725,00
Salário do profissional: R$ 970,00
Mestre de obras: R$ 1.700,00
Encarregado de obra: 1.150,00
Reajuste para outras profissões de 9,47%
Cesta-básica no valor de R$ 50,00
Não desconto dos dias de greve

Mas, lamentavelmente várias noticias publicadas, ainda citam nossas primeiras propostas, como por exemplo, 17% de reajuste, cesta-básica de R$ 80, etc.
Lutamos também pelo fim das mortes e acidentes de trabalho, desde o ano passado, 28 operários morreram no exercício de sua profissão.

O fato é que os empresários se recusam a dar um aumento de R$ 15,00 mensal no valor da cesta-básica e querem impor um salário miserável de menos de R$ 640,00 , e para conseguir satisfazer sua ganância ainda desencadeiam uma verdadeira campanha que visa criminalizar o direito, LEGAL E LEGITIMO, do exercício da greve.

Somos atacados violentamente por alguns meios de comunicação impressos e televisivos de uma forma extremamente pejorativa e agressiva que suprimem, de maneira intencional, a verdadeira razão do impasse.

Reafirmamos nossa disposição de seguir na luta pelos nossos direitos e contamos com o apoio de todos na defesa por melhores condições de vida e de trabalho.

Somos pais e mães de família, e através deste comunicado, buscamos deixar pública a verdade. 

Nestor Bezerra 
Coordenador Geral do STICCRMF